Jean Luc Nancy

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Text of Jean Luc Nancy

  • Jean-Luc Nancy I Chantal Pontbriand, uma conversa

    Nesta entrevisto de Chantal Pontb nand com o filsofo jean-Luc Nancy, realizado por e-mail em junho de 2000, poro o edio espeCial do revisto Parachutte sobre

    o idio de comunidade, so explorados vrios aspectos do trabalho do filsofo francs, que comento seus conceitos de "toque" e "comunidade", assim como suas relaes com o linguagem, com o corpo, com o arte e por entre os artes. Poro ele,

    o toque tem o dimenso de, 00 mesmo tempo, afastamento e proximidade.

    I Comunidade, toque. corpo, arte contem por6nea. \

    Chantal Pontbriand Gostaria que voc explicasse seu conceito de comunidade e sobretudo co mo se pode passar de uma comunidade exclusiva (englobando da microcomunidade dosI amantes at a comunidade universal do esprito que perpassa o Cristianismo) comunidade que est surgindo e u/trapassar essa exclusividade.

    \ Jean-Luc Nancy Primeiro, quero esc larecer que no gosto de usar o termo "comunidade"

    isolado e sem grandes precaues. Esse termo ganhou fNte conotao de "comunidade

    exc lusiva", como voc mencionou, e talvez tenha sempre denotado essa exclusividade.

    O que procuro trabalhar direta e completamente contra essa viso de comunidade e contra qualquer interioridade de comunidade. por isso que prefiro falar em ser/estar-emcomum ou ser/estar-com. I So expresses pesadas, eu sei. Sua densidade evita a seduo da palavara "comunidade". Mostra tambm que est faltando uma palavra (como falta uma entre "sujeito" e "singular", por exemplo). Tento pensar no no que denominado "uma comunidade", mas no se r/estar-com enquanto constitutivo do prprio ser (ou ser-em-si , se preferir), na medida em que no se pode conceber um sujeito, um "si mesmo", que precedesse uma relao com os outros. Ser-com-os-outros est originalmente presente em "ser si mesmo". "Eu" sou, em primeiro lugar, "com" (prximo de) aqueles que precedem meu nascimento e aqueles que seguem minha morte. Eis o essencia l: a dimenso do "com" o que foi dado como "natural" num mundo de mitos. Em nosso mundo temos que invent-Ia.

    Nesse sentido no h uma gradao de comunidades (de amantes at toda a humanidade, como voc disse). H primeiro um "ser/estar-com" universal (que tambm um "ser/estorcom" de vrios "reinos": humano, animal, vegeta l, mineral). claro que esse "se r/estar-com" no geral e indiferenciado, mas divi dido em singularidades (grupos, ordens, meios, indivduos, histrias). O que a comunidade crist uni versal e a dos amantes tm em comum o amor, na medida em que no nos mais poss lvel conhecer um "amor" que no seja de alguma maneira cristo - e amor significa dividir o impossvel. a designao expressa de um impossvel (o amor como uma nica vida de muitos). O impossvel como gozo (e no o gozo como impossvel!) ou ento o "corpo mstico" como corpo se m cabea (o Acfalo), corpo sem fim e, finalmente, corpo sem corpo... Toda comunidade deve partilhar o impossvel, sob pena de cair sob o jugo alucinatrio de uma interioridade, de uma identidade, etc.

    CP Pode-se conceber uma comunidade diferenclOda, ou seja, mu/titnica, multicultural, multiconfessional7 JLN Nenhuma outra comunidade concebvel: o "multi" constitutivo do "ser/estar-com". [A palavra francesa] "ave c" quer dizer "prximo a", do latim "apud". Em alemo, "mit" significa

    TRADUO J E A N L U C N A Ney I C H A N T A L P O N T B R I A N D 145

  • a/e REVIS TA DO PROGRAMA DE PS-GRAD U AO EM AR TE S V I SUA IS EB A U F R J 2 oO,

    "em meio a, entre". A proximidade imp li ca a pluralidade (e uma certa distncia). Nas representaes do mundo moderno, a multiplicidade tem sido absorvida pelas unidades denominadas "indivduo", "nao", e mesmo "cu ltura", "lngua", etc: pOI-que essas unidades (e no h dvida de que sejam unidades) tm sido entendidas como formadoras de identidades (propriedades inalienveis, sem diferenas internas e, no extremo, sem relaes externas: pense no conce ito pol tico de "soberania"). As unidades de povos, de culturas e de lnguas poderiam ser vivenciadas de outra maneira em um mundo que no fosse dominado pela estrutura representativa da auto-apropriao. Considere, por exemplo, que um imprio - o egpcio, por exemplo - no pretendesse tal unidade na interioridade (no estou fazendo aqu i a apologia dos imprios! Estou colocando um t ermo diferencial). OI-a, hoje chegamos exausto da aut o-apropriao: at a auto-apropriao e o autocrescimento do capital (o "desenvolvimento" ou o "crescimento" como normas ao mesmo tempo absolutas e vazias) exibem lentamente seu vazio. claro que ainda existem capita listas, mas a figura dominante no mais aquela do indivduo capitalista: a do mel-cado, e o mercado a comunidade em t ota l intel-ioridade, mas cujo interior vazio (ou an6nimo). Falar em "multiculturalismo" pressupor que haja cu lturas const itudas, "identitrias", fechadas, e que sua coexistncia seja um problema a resolver. como falar em "intersubjetividade": pressupem-se sUJeitos, e, ento, pergunta-se como ir de um ao outro! Mas uma cultura um ngulo de viso ou um modo de apreenso das coisas que s se abre em e por meio de uma co-abertu ra com outros. como uma lngua: uma nica lngua vrias lnguas. Isso significa que, ao dizer "apud" ou "mlt" ou "with", ao dizer "ensemble" ou "togeth er", cada lngua interpreta de modo singular algo que no pertence a lngua alguma, algo que no da ordem da linguagem, mas que no existe em nenhum lugar exceto nas prprias lnguas, uma a uma e coexistentes, (capazes e incapazes de se traduzirem entre si). Nesse caso, o "qualquer coisa" o "conjunto", o "comum" como t al. Mas "como tal" nada signifi ca se no o interpretarmos imediatamente (digo "interpretar" em um sentido teatral ou musical: se voc no o desem penho, no o executo) em uma lngua ou outra e, ento, em sua (in)tradutibi lidade mtua. CP O que acabou de dizer foz com que os diferentes lnguas paream indispensveis para se pensar o mundo em suo diversidade e complexidade. Como possvel reconciliar o coexistncia de lnguas (e suo preservao em um contexto de crescente uniformizao) sem depender do identidade?

    JLN As lnguas no desaparecero, mesmo que morram lnguas todos os dias, Haver uma lngua universal da comunicao, que j est se tornando realidade, mas haver sempre lnguas diferentes nas quais o pensamento e a poesia se do, porque eles so inseparveis da singularidade de uma lngua, E essa singularidade no da ordem da identidade: um movimento, um deslocamento incessante em si e em relao aos outros.

    CP Como e at que ponto pode o noo de comunidade substituir o de sociedade? H tempos, o conceito de comunidade tornou-se equivalente o uma viso pr-moderno, indiferenciada de ser/estar-com, enquanto o noo de sociedade permiti0 o superao dessa viso Qual o contexto que torno necessrio esse retorno - quase intempestivo - do ou para o noo de comunidade?

    JLN "Sociedade" poderia ser efetivamente a palavra: o SOCIUS o companheiro, o aliado, (Talvez, at mesmo, em sua variao mais dist ante, o companhei ro de guerra, portanto, uma ligao que se forja no combate contra os outros). E certamente no nego que a "sociedade" se solid ifique apartando-se de outras: ela deve distinguir-se de outras singularidades coletivas. (De ixa rei de lado a questo da guerra e outras relaes desse tipo). Mas a palavra "sociedade" (outrora freqentemente usada como associao, como agrupamento que poderia ser at ntimo: pense em "soc iedade secret a"! muito poder ia ser dito sobre o que essa expresso sugere) foi progressivamente sendo determinada ao d istingui r-se da unidade interior ("Estado" ou "comunidade"), como unidade em exterioridade

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  • (relaes de propriedade, comrcio e direito, e no relaes de intimidade, amN, identidade), A "sociedade" tornou-se o lugar de interaes relativamente extrnsecas de tomos sociais (indivduos, famOias, grupos diversos), levantando o problema de ajuste de funcionamento: onde est o interesse comum) Por que, e ento como, deve haver associao? Ao mesmo tempo, vlido lembrar que "sociedade" conserva um significado bastante forte em Marx, como em outros, na idia de "produo social" do homem: a sociedade - ou o ser/estar-com - como o lugar e modo de humanizao e, mais ainda, de "homenizao", Por isso, alis, durante os ltimos 150 anos, uma grande oscilao de e entre as palavras "socialismo" e "comunismo" tem atravessado totalmente suas histrias, O que, em minha opinio, projetou o "comum" - o cum, o "com" - foi o fato de que a "associao" j apal-ecia como um elo posterior, enquanto o "comum" evocava uma realidade pl-imeil-a, uma partilha constitutiva do prprio ser. Mas a questo que surgiu com essa palavra (e, com "comunismo") foi esta: em que consiste essa partilha do ser. realizada no ser,J que elo no se d mais em um mito, em uma figuro, em um ritual e numa identificao do "comum"? Em que ela consiste, se, justamente, ns j no a podemos mais conceber pe la guerra, j que a prpria guerra ligada a tal mito?

    CP Voc acha que a arte - que tem sido considerada uma prtica individualista na arte ocidental - pode expressar ou, melhor, engendrar uma nova viso de comunidade? Ou o arte est destinada a permanecer um tonto "arcaica", como voc j disse? JLN O que "arcaico" significa nesse contexto : o comeo na sua potncia infinita de recomear. De fato, acho que a arte to arcaica quanto o prpr io homem (o que no nada original de se dizer) e que nessa condio arcaica a arte representa algo que nunca foi idntico religio ou poltica, Se a arte s pode "permanecer arcaica" no sentido de que, a cada poca, cada configurao, cada modo de "arte", ela reexecuta incessantemente essa "qualquer coisa" de no-religioso, no-poltico e tambm no-social. e, alis, igualmente nopsicolgico; "qualquer coisa" que tem a ver com o sentido e a partilha do sentido: entendo "sentido" alm da significao lingstica e numa partilha/diviso que tambm aquela dos sentidos (audio, vi so, etc.) na medida em que ess